A parte mais difícil da vida pública é que tu perdes o teu “eu”. Deixas de ser filho dos teus pais, pai dos teus filhos, não tens formação, nada te precede, é como se tivesses acabado de nascer pra sociedade e tudo, exatamente tudo que acontecer contigo ou através de ti, na cabeça de todos, sempre derivará do público.
Não tens mais intimidade, não tens mais teu lado pessoal. Agrava-se pelo tempo em que vivemos, na frenética necessidade de atualização de tudo nas redes sociais. Toda informação, verdadeira ou não, vira alimento para aqueles sedentos por atualizações e os tão famigerados julgamentos virtuais. Ah! Quase me esqueço. Não tens direito a defesa.
Nosso país já passou e enfrentar tantos desafios, que a descrença na classe política abrange quase que a totalidade de nossa sociedade e, perante ela, quem entra passa a ser instantaneamente contaminado pelas agrúras que tomaram a política.
Perante os olhos vidrados de quem espreita qualquer deslize ou, se não o tiver, descontextualiza na primeira oportunidade para que se possa, acima de tudo, julgar livremente e sem quaisquer tipo de ritos de justiça. Ninguém está a salvo. Basta entrar. Mesmo que tenhas visões, trabalho e projetos, nada será o suficiente e tudo aquilo que o fizerdes, estás fazendo apenas teatralmente para que não percas teu quinhão no poder.
O que estes não percebem é que, com isso, afastam os bons da política. Vale ressaltar que a política em si não é e nunca será o problema. A política é ferramenta e somente através dela é possível que possamos sonhar com transformações sociais que tragam benefícios pra sociedade. Mas quando a turba passa a julgar e condenar sem defesas qualquer um que se atreva a trabalhar pelo outro, jogam a todos em uma vala comum e deixam aqueles que sonham com uma sociedade melhor com receio de se propor a missão.
É árdua, em muitos momentos a dúvida me persegue. Se eu fiz a escolha certa, se não seria melhor continuar a margem dos problemas, cuidando dos meus e seguindo o curso da vida sem me envolver com os desafios que nossa sociedade enfrenta. Porque me sacrificar se o outro me julga enquanto eu tento fazer algo por ele? Porque dar a minha cara a tapa se há tantos que covardemente se escondem e viram o rosto para não encarar os problemas da nossa sociedade?
Eu achava que sabia o porquê. Mas a verdade é que eu nunca estive tão longe da resposta. Seguirei procurando-a, mas não me escondendo. Esconde-se aquele que tem vergonha ou medo. Meu trabalho e as pessoas que confiaram em mim não me permitem sentir isso.

